Aécio Neves – Entrevista sobre a Petrobras e o governo federal

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, concedeu entrevista coletiva, nesta sexta-feira (20/02), em Brasília. Aécio criticou as declarações da presidente da República, Dilma Rousseff, sobre o esquema de corrupção na Petrobras. O senador também falou sobre a instauração de uma nova CPI da Petrobras e corrupção no governo do PT.

 

Leia a transcrição da entrevista do senador:

Depois de um conveniente silêncio que durou cerca de dois meses, certamente para se distanciar das medidas econômicas tomadas pelo seu governo, e que na verdade eram uma negação de tudo aquilo que a presidente dizia durante a campanha eleitoral, a presidente reaparece, parecendo querer zombar da inteligência dos brasileiros ao atribuir o maior escândalo de corrupção da nossa história, patrocinada pelo governo do PT, a um governo de 15 anos atrás. Na verdade, parece que a presidente volta a viver no país da fantasia que conduziu a sua campanha e que tanta decepção trouxe inclusive aos seus eleitores.

O PSDB não tem qualquer receio de que se investigue o que quer que seja, mas bastaria uma leitura no depoimento do sr. Pedro Barusco, ao qual ela se refere, que veremos lá que ele afirma que sim, que teve um entendimento com um dirigente de uma empresa holandesa e se beneficiou, se beneficiou individualmente desse entendimento, recebendo durante algum período uma propina, que transferiu depois para uma conta em seu nome pessoal na Suíça.

Pois bem, se a presidente da República, e essa é a questão central que quero trazer aqui hoje, dá crédito às declarações do sr. Pedro Barusco, e nós damos créditos sim a todas as declarações dele, é preciso que ela dê crédito e venha a público dizer o que acha do centro do seu depoimento, onde ele afirma que US$ 200 milhões foram transferidos para do PT durante esses últimos 12 anos. Boa parte disso entregue diretamente ao tesoureiro do seu partido, aliás o que eu já denunciava durante a campanha eleitoral. Na verdade, esse assunto é de extrema gravidade e não é possível que a presidente da República o trate de forma tão simplista e, a meu ver, tão incorreta.

A grande verdade é que existem dois sentimentos hoje no Brasil. Um, da metade dos brasileiros que votaram na presidente da República, de frustração, de vergonha por verem que foram enganados pelo discurso da então candidata. E outro, de indignação crescente, daqueles que já compreendiam que o governo do PT faz muito mal ao Brasil.

 

Sobre a CPI da Petrobras, o ministro Cardozo disse que está só esperando um convite. O PSDB vai se posicionar em relação a isso?

Provavelmente este convite chegará logo. O líder Carlão [Carlos Sampaio], que aqui está, pode falar sobre isso. Ontem conversamos um pouco sobre a estratégia das oposições na CPI. Outras convocações serão feitas. E queremos sim que essa CPI cumpra com o seu dever, o que não aconteceu com a última CPMI.  Acho que os fatos novos que já vieram à tona, e outros que estão por vir dão a essa CPI o combustível necessário para aprofundamento das investigações. E certamente, já que há essa disposição pessoal do ministro, ele terá oportunidade de prestar esclarecimentos no Plenário da CPI.

 

O que o sr. acha da interferência do ex-presidente Lula, das empreiteiras indo buscá-lo para tentar resolver o problema delas.

Eu custo crer que isso possa ser verdade. Porque é algo tão acintoso à própria democracia. Um país onde as instituições são sólidas e funcionam de forma absolutamente autônoma e independente. Recorrer a um ex-presidente como se o Brasil fosse uma republiqueta, onde a interferência política pudesse mudar o rumo de investigações, é desconhecer a realidade de um país que, se não avançou nos seus procedimentos éticos em razão do que aconteceu nos últimos 12 anos, felizmente, isso é algo que devemos saudar, avançou do ponto de vista das solidez das suas instituições. Temos um Ministério Público que atua de forma autônoma. Temos uma Polícia Federal que investiga, ao contrário do que gosta de dizer a presidente, não por sua determinação, mas para cumprir a sua responsabilidade constitucional. E cabe a nós, políticos, estarmos vigilantes para impedir que haja qualquer manipulação ou qualquer tentativa de politizar algo que deve continuar caminhando estritamente na esfera judicial e, obviamente, policial.

 

O sr. defenderia a ida eventual do ex-presidente Lula à CPI, como outros líderes da oposição defenderam hoje de manhã?

Não vou tomar iniciativa individual nessa direção, mas a CPMI tem que estar aberta a todas as possibilidades. Vamos atuar em conjunto com os partidos de oposição. Há um entendimento nosso, coordenado pelo líder na Câmara, deputado Carlos Sampaio, que pode falar um pouco mais sobre isso, no sentido de termos uma atuação ordenada, conjunta e com uma estratégia muito bem traçada porque, como você sabe, somos minoria na Comissão, não temos os postos de comando na Comissão. Mas certamente podemos, amparados na realidade dos fatos, nas informações e, sobretudo, com o apoio da opinião pública, fazermos com que essa CPI efetivamente funcione.

 

Voltando às declarações da presidente Dilma, o sr. vê nelas uma tentativa de retirar a responsabilidade desse governo em relação à corrupção?

Provavelmente, essa declaração é fruto das últimas conversas que ela teve com seu marqueteiro. A presidente, mais uma vez, tenta levar os brasileiros à ilusão de que vivemos em um país que não é real. Porque, no país da presidente, funcionários da Petrobras, em entendimento com dirigentes de empresas privadas, fizeram uma grande articulação para lesar o Estado contra os interesses dos governantes, contra o interesse daqueles que indicavam os diretores da Petrobras. Nada mais falso. Tudo isso aconteceu de forma institucionalizada. Olha, quem diz não sou eu. Quem diz são os depoimentos, são os delatores porque isso beneficiava um projeto de poder. Era a hora sim – e falo isso de forma muito franca – da presidente da República fazer a sua mea culpa, olhar nos olhos dos brasileiros e dizer que o seu governo errou, e errou muito. Errou na condução da economia, errou durante a campanha eleitoral ao pregar a mentira, o terrorismo como arma de campanha, e errou principalmente no seu comportamento ético. Enquanto não houver a mea culpa do governo, os brasileiros continuarão a se sentir iludidos e lesados pela presidente da República e pelo seu governo.

 
O sr. acha que há um desespero da presidente Dilma e do PT diante dessas denúncias de US$ 200 milhões?

Nada muda a realidade dos fatos. Confesso que me surpreendi muito com a superficialidade do diagnóstico da presidente da República, sem em nenhum momento fazer referência à parte mais contundente do depoimento do sr. Pedro Barusco. Eu, como presidente do PSDB, acredito sim que ele fala a verdade, até porque em uma delação você tem que falar a verdade e comprovar. Acredito que ele, no governo do PSDB, por iniciativa própria – e é ele quem diz – fez sim o entendimento com o dirigente de uma empresa à qual havia beneficiado e recebeu uma propina individualmente, transferida para uma conta em seu nome. Isso é triste, é lamentável, e ele será punido também por isso. Mas o que é grave, o que estamos assistindo no Brasil é o que jamais havia acontecido na nossa história. É a institucionalização da corrupção em benefício de um projeto de poder. E se o senhor Pedro Barusco tem credibilidade, segundo a presidente da República, para dizer o que fez em 1997 e 1998, é preciso que a presidente da República e o governo deem credibilidade ao que ele disse que fez ao longo dos últimos 12 anos.

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