Publicado em 28 de agosto de 2026

Entrevista Aécio Neves em Belo Horizonte 28-08-26

“Quero ser muito direto e claro com cada um dos mineiros e das mineiras. Eu havia tomado uma decisão, uma decisão serena, refletida, de me dedicar, nos próximos anos, à recuperação do espaço político do centro do Brasil, através da presidência do PSDB, que exerço hoje.

A partir dessa decisão, que eu, inclusive, comuniquei a toda a Minas Gerais, eu passei a receber todo tipo de apelo, todo tipo de pedido à reflexão para que, nesse momento tão difícil, tão duro, porque passa Minas Gerais, eu, de alguma forma, me dispusesse a cooperar mais ou a participar mais desse processo. Eu quero dizer que depois, sobretudo do desprendimento do PDT e do meu partido, PSDB, da Federação PSDB-Cidadania, eu quero anunciar aqui hoje que mudei de rota.

Mudei de rota com um sentimento muito profundo de responsabilidade com Minas Gerais. São duas as razões fundamentais que me fazem hoje me colocar, mais uma vez, à disposição dos mineiros numa disputa eleitoral.

A primeira e a maior de todas sempre: Minas Gerais. Nós chegamos numa situação quase que inadministrável no nosso Estado. Não aponto aqui o dedo para ninguém, mas eu aponto sim o meu olhar para o futuro. Minas Gerais precisará ter no Senado da República uma representatividade muito maior do que em qualquer outro tempo. E olha que eu já estive lá.

O Senado é mais vital do que nunca para que nós possamos rediscutir a negociação da nossa dívida. É no Senado Federal, por exemplo, que vamos enfrentar uma imposição que já se apresenta como a valorização ou a avaliação dos ativos colocados à disposição do governo federal na negociação do Propag, que naturalmente o Governo Federal buscará subavaliá-los. Se nós não tivermos uma articulação sólida e forte no Congresso Nacional, já começaremos esse debate inferiorizados.

Já pagamos hoje pouco mais de 100 milhões de reais mensais, a partir da negociação do Propag. Em cinco anos, isso vai chegar a 500 milhões! O que é absolutamente impossível de o Estado pagar.

Eu, se eleito senador, no dia seguinte, estarei articulando as bancadas de todos os outros estados, especialmente os dos estados devedores. Vou criar, sim, a bancada no Senado dos estados devedores, para pressionarmos o governo federal para uma negociação mais realista e que respeite a necessidade de Minas continuar investindo na saúde, na educação, na segurança pública.

Repito, fui senador e fui governador de Minas Gerais por dois mandatos. Nunca o Senado foi tão vital, imprescindível à administração de Minas Gerais como é nesse momento.

Portanto, a razão da responsabilidade para com Minas Gerais me faz estar aqui hoje me apresentando como candidato ao Senado.

Mas existe uma segunda razão. Não menos importante. Nós entendemos, e aí a partir de um apelo de lideranças de todo o Brasil, e não apenas do PSDB, mas lideranças mais ao centro, eu acredito que no Senado e presidindo o PSDB, o partido que proporcionalmente mais vai crescer nessas eleições em todo o Brasil, eu acho que eu terei melhores condições de articular, sim, um projeto para 2030 ao centro, realista, um projeto que olhe o Brasil para o futuro, sem extremismos, sem essa radicalização pueril, essa radicalização penosa que tomou conta da política brasileira.

A razão de Minas é a primeira delas. Eu acredito que, com a minha experiência, com a minha trajetória, foi no Senado que eu articulei uma candidatura à presidência da República, que por muito pouco não foi vitoriosa, e o Brasil perdeu muito naquele momento.

É no Senado Federal que eu pretendo rearticular as forças de centro para apresentarmos ao Brasil um projeto transformador, como tentamos apresentar em 2014.

Portanto, eu me coloco nesse momento à disposição dos mineiros e das mineiras. Tenho enorme respeito por todos os candidatos que estão colocados ao Senado, ao Governo, à Câmara nessa eleição. Simplesmente se colocar como candidato já é um gesto de muita coragem e eu cumprimento a todos.

Olho para o lado, não vejo nenhum dos nomes colocados para o Senado adversários meus, nenhum deles, nem aqueles colocados mais à esquerda ou mais à direita.

Nosso adversário maior é a situação, a nossa adversária maior é a situação gravíssima porque passa Minas Gerais e nós temos, independente de partidos políticos, que estar à disposição da solução desses problemas.

Eu não serei o candidato de A, eu não pretendo ser o candidato de B. O que eu quero ser é o senador de Minas Gerais para, qualquer que seja o próximo presidente da República, eu esteja lá, em condições de negociar com ele, de defender em nome dos mineiros os interesses do nosso Estado.

Não posso deixar de dar uma palavra aqui de apreço e de cumprimentos ao nosso candidato Alexandre Kalil ao governo do Estado, que estará ao nosso lado nessa caminhada e que demonstrou na administração de Belo Horizonte, à frente da Prefeitura de Belo Horizonte, a sua capacidade e a qualidade da sua gestão.

Caminharemos todos juntos com um só sentimento: É a hora de Minas.

Não farei uma campanha com críticas, com ataques a quem quer que seja. Vou fazer uma campanha propositiva e estarei pronto para o debate em favor dos interesses de Minas Gerais.

Concluo para estar à disposição de vocês dizendo que não foi uma decisão fácil para mim, foi uma decisão muito refletida. Eu já estive no Senado, já estive na Câmara, fui presidente daquela Casa, já estive à frente do governo de Minas Gerais, portanto, acho que cumpri um papel relevante na política mineira.

Volto ao jogo, volto à disputa eleitoral, por responsabilidade para com Minas Gerais e por ter a consciência de que eu posso sim ajudar Minas a enfrentar e superar suas gravíssimas dificuldades. Que o povo diga o que acha dessa decisão.”

Fotos: Uarlen Valério

Leia a íntegra da entrevista

O Sr. vai embarcar no apoio ao presidente Lula?

Não. Nossas trajetórias não se confundem. Nós respeitamos a trajetória do PDT, a sua opção nacional. Nós estamos fazendo aqui uma opção por Minas Gerais. E é muito bom ter, ao meu lado, o PDT, que dialoga com o atual presidente da República, como eu tenho certeza que terei nessa caminhada também apoiadores que dialogam com outro campo político.

O que eu quero ser, repito, é o candidato de Minas Gerais. É natural que tenham candidatos mais próximos ao presidente Lula e à esquerda, candidatos mais próximos ao bolsonarismo, mais à direita. É legítimo que eles busquem esse espaço. Eu vou respeitá-los sempre, mas, repito, serei o senador de Minas Gerais em condições de dialogar e defender os nossos interesses com qualquer presidente da República que seja escolhido pelos brasileiros.

O que o sr. responde para os eleitores que enxergam a sua aliança com Alexandre Kalil, no mínimo, contraditória?

Eu não acho. A política é a arte de buscar o convívio, é buscar o convívio em torno de projetos comuns. Se estivermos distantes no passado, nada impede que estejamos juntos hoje.

Eu sou da cartilha tancrediana, que dizia que o seu adversário político eventual não precisa ser seu inimigo, porque as circunstâncias da política podem aproximá-los. E essa aqui é uma realidade.

Tenho enorme respeito pessoal pela trajetória do prefeito Alexandre Kalil. Da minha boca jamais saiu qualquer crítica a ele e fico muito feliz de vê-lo com a disposição, com a determinação que está de contribuir com Minas Gerais.

Vamos estar juntos, de cabeça erguida, andando por Minas Gerais. E eu, tenho certeza, de que estamos contribuindo para resgatar a política, a boa política tão em falta, não apenas em Minas, mas no Brasil.

Em 2022 havia o movimento do campo do centro para que você voltasse a disputar o Senado e você acabou disputando a eleição para deputado federal. O que mudou do Senado de 22 para atual?

Olha, eu vou ser muito franco. Eu tinha tomado uma decisão, sincera, uma decisão que eu anunciei ao Brasil inteiro, de que eu me dedicaria à liderança do PSDB, à presidência do PSDB, porque nós estamos reconstruindo, através do PSDB, esse caminho ao centro. Portanto, era uma decisão que já estava tomada.

O surgimento dessa candidatura agora, ou dessa possibilidade, não houve em 1922. Em 1922 não existia essas circunstâncias que hoje me fazem aceitar esse desafio.

Talvez tenha aprofundado no sentimento dos mineiros, não apenas das lideranças políticas, mas da sociedade mineira, a necessidade de um somatório de forças, a necessidade de não perdermos esse momento que estamos vivendo para construir uma bancada muito sólida e forte no Senado.

Vou ser absolutamente sincero. Recebi manifestações de apoio, de estímulo da esquerda e da direita. O telefone não parou nesses últimos dias. Gente com compromisso, inclusive, com candidatura do PT a outros cargos, com candidatura do PL a outros cargos.

É um sentimento de que, já que são dois votos, é possível até que aqueles que têm uma identificação ideológica, num ou no outro campo, possa compreender que é necessário ter alguém que dialogue com os dois extremos. Acho que, nesse momento, essas circunstâncias foram criadas e eu atendo a elas, eu atendo a essa convocação com muita humildade, mas com muita responsabilidade.

Vou andar por Minas Gerais, tentando olhar para o futuro e reunindo as pessoas de bem em torno de um projeto de fortalecimento do nosso Estado.

O que você e o PSDB de hoje representam de diferente daquele PSDB de 2014?

O PSDB é o partido que talvez tenha feito as mais importantes transformações com as quais nós convivemos hoje, na nossa contemporaneidade. Não há em nenhum momento ou em nenhuma região do país alguém que não se lembre de alguma medida tomada nos governos do PSDB, seja a estabilização da moeda com o Plano Real, seja a Lei de Responsabilidade Fiscal que botou ordem à gastança desenfreada.

Seja o SUS, cujo implementador mais importante é o deputado Carlos Moscone, nosso candidato a vice-governador na chapa com o Kalil. A modernização da nossa economia, a privatização do setor de telecomunicações, de mineração.

Tudo isso veio da lavra do PSDB. Em 2014, nós tentamos interromper o ciclo do PT para retomar a agenda de mudanças. Não fui feliz na eleição. Eu acho que ali o Brasil pegou uma encruzilhada equivocada que nos trouxe a essa radicalização que estamos vivendo aqui hoje.

O PSDB de hoje, ele vem revigorado, porque ele se escora de alguma forma, se ampara nas realizações do nosso passado, na coragem que nós demonstramos de fazer o que fizemos com uma visão de futuro, daquilo que é necessário, os investimentos em tecnologias, a utilização da inteligência artificial em benefício das pessoas, seja na saúde, seja na educação; uma política externa pragmática em defesa dos interesses brasileiros e não com esse viés ideológico que temos vivido, não apenas nesse governo, mas nos últimos governos.

Uma proposta que seja liberal na economia, mas que seja inclusiva no campo social, esse é o PSDB, um partido do centro.

Eu tenho absoluta convicção que vamos viver, nessas eleições, daqui a cerca de 40 dias, a última eleição extremada, a última eleição radicalizada.

E quero, sim, com a ajuda de Paulo Abi-Ackel e de tantos outros companheiros, de candidatos a governador como Ciro Gomes, como o JHC, como tantos outros, eu quero colocar o PSDB na liderança no Brasil de um projeto para 2030.

Talvez a minha presença no Senado, se eu merecer, claro, a confiança dos mineiros, vai ajudar muito a que o Brasil supere a radicalização e construa um projeto que olhe para frente, não apenas para os lados, como ocorre hoje.

Você falou que é uma candidatura de centro e, em Minas Gerais, para o Senado, existem várias outras de centro e de direita. Isso pode atrapalhar na campanha?

Acho que não, o contrário. Eu não vejo nos outros candidatos adversários – repito que tenho enorme respeito por quem se dispõe a disputar eleições – a democracia se faz com gestos de coragem, e você se colocar como candidato é um gesto de coragem – cada um terá a oportunidade de fazer a sua pregação, dizer aquilo em que acredita, e eu farei a minha olhando para frente, não olhando para os lados.

Os candidatos ao Senado não são meus adversários, eles são pessoas que buscam, à sua maneira, com as suas convicções, defender os interesses de Minas Gerais. Portanto, têm meu respeito.

Vou fazer uma campanha propositiva e dizendo,o que acabei de dizer aqui, que no dia seguinte, se eu for vitorioso nessas eleições, eu vou organizar a bancada da resistência no Senado Federal em apoio aos estados em situação difícil, como é o caso do estado de Minas Gerais.

Tomo essa decisão, e encerro aqui, como um gesto em favor de Minas Gerais, em favor dos nossos valores, da nossa história, mas principalmente em defesa do nosso futuro.

Acho, sim, que, no Senado, com a minha experiência, com as relações que eu construí ao longo de toda uma vida, inclusive já estando lá, posso, sim, ser extremamente útil a Minas e ao próximo governador do Estado na superação das nossas dificuldades.

É isso que me faz estar aqui e dizer a vocês que, a partir de hoje, sou candidato a ser o senador de Minas Gerais.

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