Indústria já considera 2014 um ano perdido

Diante da piora nas expectativas e da previsão de crescimento da economia cada vez menor, setores dinâmicos da economia dão como perdido o ano de 2014. Incapazes de vislumbrar de onde virá o aquecimento da atividade econômica e com a alta disseminada no nível dos estoques, empresários industriais reveem para baixo suas estimativas, que vão de queda até uma leve alta na produção. Enquanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê avanço de 1,5% na indústria da transformação, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) passou a projetar queda de 0,8% na produção nacional este ano, sem boas perspectivas para 2015. A previsão anterior da Fiesp era de crescimento de 1%.

O longo ciclo de alta de juros, a reversão de desonerações tributárias e a provável alta no custo de produção, sobretudo em função do encarecimento da energia elétrica e dos insumos importados, estão entre os fatores que dificultam a vida dos fabricantes. Segundo o diretor do Departamento de Economia da Fiesp, Paulo Francini, o chamado carry-over (efeito estatístico que informa quanto do crescimento do ano anterior foi transferido para o seguinte) foi muito negativo para o setor, que virou o ano passado com queda de 3,7%. Além disso, 2014 começou pouco promissor, com redução do consumo das famílias e do crédito, associado a outros fatores “complicados”, como Copa do Mundo e eleições.

— A sensação que temos é que 2014 será mesmo um ano perdido — afirma Francini.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, disse que, em 2014, não haverá crescimento da produção de eletroeletrônicos. O faturamento do setor deve subir entre 3,5% e 4%, mas puxado pelas importações, que correspondem a 26% dos produtos acabados.

A pesquisa de sondagem junto às empresas associadas à Abinee, que será divulgada na próxima semana e foi adiantada ao GLOBO, mostra uma piora nos negócios do setor em março: 44% dos empresários entrevistados responderam que houve aumento nas vendas, contra 61% em fevereiro, e 17% deles informaram que as vendas ficaram estáveis, percentual que correspondia a 25% em fevereiro. Para 39% das empresas, houve queda nas vendas, contra 14%, no mês anterior.

— Diante do calendário que nós temos, o ideal seria que este ano passasse bem rápido — destacou Barbato.

A indústria de máquinas e equipamentos, depois de amargar uma redução de 3% no faturamento em 2012 e de 5,7% em 2013, espera uma estagnação, ou até mesmo uma nova queda de até 3% nos resultados deste ano. Na avaliação do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, com a conjuntura atual, uma retomada dos investimentos será possível apenas a partir de 2016.

— Este ano é de eleições. E o ano que vem será de ajustes, de corte de despesas, com um cenário que não será favorável para a indústria — disse.

A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) estima um crescimento do setor de 4,5% no faturamento este ano mas, diante da desaceleração nas vendas de materiais de construção no varejo, o presidente da entidade, Walter Cover, avisou que os números podem mudar. Já a Anfavea, representante dos fabricantes de veículos automotores, espera que, no fechamento de 2014, seja registrado um crescimento de 1,4% na produção de veículos e de 1,1% nos licenciamentos (mercado interno). No ano passado, esses percentuais foram de 10% e -0,9%, respectivamente.

O presidente da Anfavea, Luiz Moan, reconheceu que, na atual conjuntura, o setor registra avanço em ritmo menos acelerado que o verificado durante a crise de 2008/2009. Ele observou, porém, que hoje as bases de comparação são bem maiores.

— Isso faz parte de um processo absolutamente natural que costumo batizar de dores do crescimento. Quando se vende pouco, é mais fácil registrar um aumento elevado. Mas, num patamar lá em cima, é mais difícil ter o mesmo ritmo de crescimento — disse Moan.

Dados da Anfavea mostram que o licenciamento de veículos registrou queda de 15,2% em março, com 240,8 mil unidades, na comparação com igual mês do ano passado. No primeiro trimestre, o recuo foi de 2,1%.

Perda de competitividade

Para o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo, o setor deve registrar crescimento em 2014, mas em cima de uma base reprimida. No caso do aço bruto, que registrou retração de 1% no ano passado, as projeções são de crescimento de 5%. As vendas internas devem subir 4,1% e as exportações, 2,3%, depois de uma queda de 17,5% em 2013.

Ele destacou que toda a indústria de transformação vem perdendo competitividade de forma sistemática, sobretudo com a entrada de importados, e não consegue aumentar as exportações. Já Fernando Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira da Industria Têxtil e de Confecção (Abit), disse que a expectativa para a produção é entre alta de 1% e queda de 1%.

— Este ano deverá repetir 2013, porém com mais emoções. Temos eleições e Copa do Mundo, o que altera o movimento no comércio — disse Pimentel.

De acordo com o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo Júnior, as pesquisas de sondagem industrial realizadas pela instituição entre fevereiro e março revelam crescimento disseminado do nível dos estoques nos setores industriais, sobretudo automotivo, mecânico, têxtil, vestuário e calçados, associado a uma demanda fraca, tanto no mercado interno, quanto externo.

— Não quero ser alarmista, mas não vejo sinais positivos na indústria, que deve terminar o ano em ritmo lento de atividade — disse o professor.

Ele destacou que a conjuntura é desfavorável aos investimentos. Lembrou que o setor de bens de capital, depois de resultados positivos entre o fim de 2012 e boa parte de 2013, com aumento nas vendas de caminhões e máquinas agrícolas, voltou a se desacelerar. A queda no índice de confiança neste segmento, salientou Campelo, deve se estender até o segundo semestre. Outro fator agravante são as incertezas envolvendo o setor energético.

 

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Redução de energia

Artigo da jornalista Miriam Leitão – Jornal O Globo – 11/04/2014

 

O governo convocou ontem uma reunião de todas as autoridades do setor elétrico para discutir a crise. Eles avaliaram o cenário de ter que iniciar ao final de abril uma campanha de restrição voluntária de consumo de energia, com foco no setor industrial. O ONS orientou formalmente as empresas hidrelétricas para desligarem as turbinas à noite para poupar água nos reservatórios.

Apesar de o governo continuar negando que haja crise de abastecimento, ela tem se agravado. O ONS havia dito em fevereiro que o nível dos reservatórios do Sudeste tinha que estar, ao final de abril, em 43% para evitar o risco de racionamento. Agora, informou que chegará ao final do mês em 36,5%. Ou seja, ficará abaixo do que ele mesmo havia dito que era o limite de segurança. Foi por causa desse número que a reunião foi convocada e foram contatadas empresas eletrointensivas.

Algumas hidrelétricas do sistema Eletrobrás estão seguindo a determinação de desligar as turbinas à noite e liga-las de manhã. Ainda que este seja um procedimento que ocorre de vez em quando, não deve ser feito com essa periodicidade diária. Por isso, a Cemig negociou com o ONS para não ter que cumprir essa determinação. O risco de queima de turbina é muito grande. Outro problema que pode decorrer desse liga-desliga é ambiental: em época de muita produção de peixe, eles acabam se aproximando de área na qual não chegariam se a turbina estivesse ligada. Quando as máquinas são religadas aumenta muito a morte de peixes.

O nível de água na hidrelétrica de Três Marias ficará, segundo as projeções, bem abaixo do ponto a que chegou no pior momento do racionamento de 2001. A projeção é que em setembro pode chegar a 3,5% do volume útil, o que levaria a empresa a ter que desligar as máquinas. Em 2001, chegou a 8,5%.

Há quem diga no setor que Três Marias terá mesmo que parar, desmontar as máquinas, para aumentar a vazão do rio para alimentar o reservatório de Sobradinho.

O governo tem tentado evitar qualquer campanha de redução de consumo para não dar o braço a torcer neste momento pré-eleitoral. O problema é que o nível dos reservatórios torna a cada dia mais difícil adiar alguma racionalização do consumo. A tendência é tentar esse caminho: redução voluntária e com foco no setor industrial, e, principalmente, das que mais consomem energia. Isso pouparia o consumidor e derrubaria ainda mais a indústria.

Se evitar o racionamento este ano com medidas como essa, o país ainda assim chegará ao fim do ano com um nível tão baixo de água nos reservatórios que complicará o início do próximo governo. O grave problema financeiro das distribuidoras causado pelo custo da compra de energia no mercado livre e mais o custo das térmicas não se resolve com o empréstimo de R$ 11,2 bilhões que será tomado de um pool de bancos pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Para se ter um ideia, o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) somado de todas as distribuidoras é de R$ 10 bilhões. Toda a capacidade de geração de caixa das empresas não cobre sequer o preço da energia no mercado de curto prazo. E elas só estão comprando nesse mercado porque o governo geriu mal os leilões de venda e compra de energia, deixando parte das empresas “descontratadas”, como se diz no jargão do setor.

Um dia, todo esse custo será repassado para o consumidor, mas elas têm que carregar esse prejuízo até o repasse. Por isso o governo inventou essa fórmula tortuosa de repassar o dinheiro para elas via empréstimo tomado pela CCEE.

Tudo seria muito mais fácil se o governo tivesse admitido o problema em tempo, iniciado medidas de racionalização de consumo, campanhas de economia de energia. Em vez disso, o governo, para manter a quimera da energia barata como arma de campanha eleitoral, tem elevado os riscos de desabastecimento, e, principalmente, o custo da energia. O governo tenta esconder o fato de que é o consumidor quem vai pagar a conta quando passar o período eleitoral, mas esse já é um segredo de polichinelo.

A falta de chuva foi apenas um dos componentes dessa crise. Ela foi em grande parte causada por erros cometidos pelo governo no gerenciamento do setor elétrico.

 

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É preciso evitar a destruição da Embrapa

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é reconhecida, no setor estatal do país, pela seriedade, qualidade e relevância de seu trabalho. É um órgão de ponta, considerado um dos grandes responsáveis pelo salto da produção agropecuária devido ao pioneirismo das pesquisas para aumento da produtividade e adaptação de espécies a diferentes regiões brasileiras. Além dos trabalhos com pesquisas na área da genética, responsáveis pelo primeiro clone brasileiro.

É uma empresa estatal diferenciada em que, num universo de 9.870 empregados, apenas dez são comissionados sem integrar o quadro efetivo. Um quarto dos servidores é de pesquisadores, dos quais 74% têm doutorado e 7%, pós-doutorado. Há uma tradição de nomear funcionários de carreira que se destacam para os cargos de direção, uma forma de manter livres de influências políticas externas, tanto quanto possível, as metas traçadas.

Surgem, todavia, nuvens carregadas no horizonte da Embrapa. Há indícios de aparelhamento e apadrinhamento partidário em setores estratégicos da empresa, de afrouxamento de critérios para escolha de diretores, com predominância do critério de indicação política. Esses indícios são uma ameaça ao padrão de qualidade e relevância mantidos pela Embrapa, mas não chegam a surpreender, pois tem sido rotina governamental em relação ao setor estatal brasileiro.

Neste momento, em que espoucam escândalos envolvendo a direção da maior e mais importante estatal — a Petrobras— durante os governos do PT, é desanimadora a perspectiva de a Embrapa — a “joia da coroa”, como uma vez a chamou o ex-presidente Lula — ser afetada no que tem de mais valioso: os critérios do mérito profissional na indicação de seus principais dirigentes.

A atual diretoria foi escolhida, em abril de 2011, dentro dos critérios que prevaleciam na empresa — processo de seleção interno, com análise de currículos e classificação das melhores posições, para posterior indicação dos nomes pelo Conselho de Administração e Ministério da Agricultura. Mas os mandatos terminam este mês e, na nova composição, deve ganhar força a indicação política. Lamentável.

Maurício Antônio Lopes, atual presidente e pesquisador de carreira, chegou à função, em outubro de 2012, por nomeação do Planalto, sem seleção interna. Em entrevista ao GLOBO, negou que haja aparelhamento da Embrapa por partidos políticos, admitindo apenas “preferência política” por parte de alguns diretores e chefes de área.

A Embrapa não precisa de politicagem, mas de profissionalismo, orçamento seguro e parcerias privadas para ter condições de manter sua atuação de ponta num setor tão estratégico para o Brasil somo a agropecuária. É preciso evitar a sua destruição.

 

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As perdas da Eletrobrás

O prejuízo de R$ 6,3 bilhões registrado em 2013 pela Eletrobrás – que contabiliza o terceiro resultado anual negativo consecutivo – é mais uma parte da conta da política populista de redução da tarifa imposta pelo governo Dilma a todas as empresas do setor elétrico, o que vem comprometendo seu desempenho econômico-financeiro.

É provável que, sem o socorro dado pelo Tesouro a essas empresas, os resultados teriam sido piores. Para não provocar, com sua política, o desequilíbrio financeiro das empresas, que cortariam investimentos e provocariam uma crise na área de energia, e para não elevar as tarifas, o que pressionaria a inflação, o governo vem usando recursos orçamentários.

Foram liberados R$ 9 bilhões em 2012 e, em fevereiro, foi anunciada nova operação de socorro às distribuidoras, de R$ 12 bilhões. Na reprogramação das contas da União para este ano, as receitas foram reestimadas, com aumento (de fonte não identificada) de R$ 3,94 bilhões, para cobrir despesas das distribuidoras com a compra de energia produzida pelas usinas térmicas – cujo custo de operação é bem mais alto -, acionadas para compensar a queda de produção das usinas hidrelétricas provocada pela escassez de chuvas.

Esses números sintetizam a crise do setor elétrico, gerada pela política anunciada em setembro de 2012 pela presidente Dilma Rousseff, que prometia a redução de 20% da tarifa paga pelos consumidores, e agravada pelas chuvas escassas, pelo baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e por atrasos de projetos de geração e transmissão de energia.

Os resultados financeiros da Eletrobrás resumem parte dos efeitos dessa combinação que tem sido danosa para as empresas do setor, para seus acionistas, para os consumidores – com o aumento dos riscos à estabilidade do sistema elétrico nacional – e para os contribuintes, aos quais, ainda que de maneira indireta, já está sendo apresentada a conta da política energética do governo Dilma.

No início desse governo, chegou-se a dizer que a mudança na forma de gestão da Eletrobrás – a partir de então dirigida por técnicos que substituíram dirigentes indicados por partidos políticos – a transformaria na “Petrobrás do setor elétrico”. Parecia um elogio na época, pois eram grandes as esperanças com relação ao pré-sal e não se conheciam pormenores da crise administrativo-financeira em que o governo do PT lançou a estatal do petróleo.

Comparados com o mau desempenho da Petrobrás em praticamente todas as frentes em que atua – a produção de petróleo ficou estagnada durante anos e só agora apresenta lenta recuperação, sua capacidade de refino não foi ampliada para atender à demanda em alta, o que a forçou a importar derivados a preços mais altos do que foi autorizada pelo governo a cobrar no mercado interno e, como a coroar a gestão petista, envolvida no escândalo da compra da Refinaria de Pasadena, no Texas, a um preço e em condições injustificáveis -, talvez a Eletrobrás não esteja longe de se transformar na “Petrobrás do setor elétrico”.

Quando, por imposição do governo, aderiu ao plano de redução de tarifas anunciado pela presidente Dilma, a Eletrobrás calculava que receberia cerca de R$ 30 bilhões em indenização por investimentos antigos em usinas e linhas de transmissão. No entanto, como fez com outras concessionárias, algumas estaduais, o governo pagou bem menos do que o valor pleiteado. No caso da Eletrobrás, repassou R$ 14 bilhões, menos da metade do esperado.

Isso tornou ainda mais aguda a crise da estatal, que pouco antes anunciara um plano de reestruturação, inclusive com um programa de demissões voluntárias, que reduzirá despesas futuras, mas de imediato impõe gastos elevados. Além disso, por imposição de interesses políticos regionais, a Eletrobrás absorveu distribuidoras estaduais tecnicamente quebradas, que lhe impuseram mais perdas. Os resultados não poderiam ser diferentes dos que apresentou.

Espera-se que, mesmo assim, ela consiga executar seu ambicioso plano de investimentos para os próximos anos, pois o País precisa deles.

 

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Agência de Risco rebaixa nota do Brasil

Uma das principais agências de rating do mundo, a Standard & Poor’s (S&P), reduziu ontem (24) a nota de crédito do Brasil para BBB- a menor possível entre o grupo de países com “grau de investimento”, isto é, aqueles carimbados como seguros para investidores institucionais e o mercado financeiro. Em pleno ano eleitoral, o governo Dilma Rousseff foi surpreendido pela notícia, porque acreditava ser capaz de impedir a decisão, que ameaçava o País desde o ano passado.

Em um duro comunicado, a S&P apontou para a deterioração da política fiscal, o baixo crescimento da economia, o uso de bancos públicos para sustentar os programas do governo, o adiamento do reajuste de energia e o abatimento das desonerações tributárias para o cumprimento da meta do superávit primário, expediente criado no ano passado.

“Apesar da recente reprogramação orçamentária, que incluiu o esforço de cortar algumas despesas em 2014, será difícil atingir a meta de 1,9% de superávit primário sem o recurso das receitas extraordinárias, em nossa visão, e dado o baixo crescimento da economia e a manutenção das desonerações. A implementação das medidas recentemente anunciadas para evitar as perdas do setor elétrico (devido ao baixo nível de chuvas e a dependência de energia térmica mais cara), sem ter aumentado a tarifa de energia em ano eleitoral, será desafiadora”, diz o relatório da S&P.

Segundo apurou o Estado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, soube da decisão à tarde, durante reunião no Palácio do Planalto com Dilma, banqueiros e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Em nota oficial, o Ministério da Fazenda qualificou a decisão da S&P como “inconsistente” com as condições da economia brasileira. A Fazenda afirma que o anúncio é “contraditório”, “não procede”, e que a agência questiona “equivocadamente” a suficiência do Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil. “Independentemente de quaisquer avaliações, reafirmamos nosso compromisso com o cumprimento da meta de superávit primário de 1,9% do PIB” disse a Fazenda.

Nos bastidores, a equipe econômica avalia ser possível um novo rebaixamento no ano que vem, o que retiraria o Brasil do grupo de países mais confiáveis, o chamado investment grade. O anúncio, no início da noite de ontem (24), serviu também de combustível para críticas da oposição.

A decisão da S&P, cujos especialistas visitaram o Brasil há duas semanas, chegou em momento em que o governo julgava estar superando as dificuldades dos dois últimos anos.

O drama no governo é que o anúncio da S&P pode desencadear um efeito em manada, isto é, outras agências de classificação de risco, como Fitch e Moody’s, podem seguir a onda.

Esse rebaixamento foi emblemático porque a S&P foi a primeira agência a elevar a nota do Brasil, há seis anos. O governo confiava na melhora da economia brasileira, ao longo deste ano, para driblar o corte.

 

Surpresa

De acordo com uma fonte graduada da equipe econômica, o que surpreendeu foi o peso dado ao ritmo de crescimento econômico. “O tema fiscal é momentâneo, todo mundo sabe que tem a ver com a transparência e os problemas de 2012, mas isso não se repetiu e nem se repetirá”, disse a fonte. “Mas apontar o crescimento, justamente neste momento de retomada da economia foi surpreendente.”

Segundo outra fonte graduada, a situação é sensível, mas o quadro continua positivo, uma vez que a nota continua como “grau de investimento”. À noite, as notas de crédito da Petrobrás e da Eletrobrás também foram rebaixadas. (João Villaverde e Adriana Fernandes)

Brasil cai 20 posições em ranking de logística

O Brasil caiu 20 posições no ranking mundial de logística do Banco Mundial (Bird), que mede a eficiência dos sistemas de transporte em 160 países. O relatório, divulgado nesta quinta-feira, leva em conta a percepção dos empresários em relação à eficiência da infraestrutura de transporte. O Brasil passou a ocupar o 65.º lugar no ranking. Trata-se da pior colocação desde que o ranking foi lançado, em 2007.

Paulo Fleury, diretor-geral do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), define o resultado como “desastroso” para o País. “A hora da verdade chegou: o Brasil investiu bilhões em obras de infraestrutura de transporte que, por problemas de gestão, não foram terminadas, e está aí o resultado.”

Na avaliação de Fleury, o fato de o estudo não medir os avanços ou retrocessos físicos, mas a percepção dos empresários, é sintomático. Pouca coisa mudou na infraestrutura do País nos últimos anos, mas a posição do Brasil no ranking foi se alterando. Em 2007, quando a pesquisa foi lançada, o Brasil ocupava o 61.º lugar. Em 2010, ficou na sua melhor colocação: 41.º posto. Em 2012, caiu para a 45.ª posição. De lá para cá, despencou para a sua pior colocação.

Fleury atribui as oscilações às mudanças nos cronogramas das obras. “Quando a primeira pesquisa foi realizada, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) havia acabado de ser lançado e a expectativa de melhora empurrou o indicador para cima por um tempo”, diz Fleury. “Como as obras não saem do papel, mas a demanda por transporte aumenta, estrangulando o sistema, a frustração só fez aumentar e nem as concessões no ano passado conseguiram melhorar os ânimos.”

Levantamento do Ilos mostra que o atraso médio nas obras do PAC é de 48 meses. Há também enorme descompasso entre o custo orçado e o custo que se viu na prática. O aumento médio foi de 85%.

Muitas deficiências. O Banco Mundial também divulgou a classificação dos países em seis itens específicos na área de logística e transporte, usados em conjunto para determinar a classificação geral. O segmento que o Brasil está mais bem colocado é na “qualidade e competência logística” (50.ª posição) e o pior no “serviço de aduanas e alfândegas” (94.ª). Na categoria “rastreamento e monitoração” está na 62.ª e, nas “entregas internacionais”, na 81.ª.

Outros países da América Latina estão em posições bem melhores que a do Brasil, como Chile (42.º lugar, o melhor classificado da região), México (50.º) e Argentina (60.º).

Desigualdades. As três primeiras posições do ranking são ocupadas por países desenvolvidos – Alemanha, Holanda e Bélgica. Entre os últimos estão Somália, Afeganistão e República Democrática do Congo. O Banco Mundial reconhece que reformas no setor são complexas e a melhora do transporte exige pesados investimentos, o que dificulta o avanço em países em desenvolvimento. Por essa razão, os países de alta renda são maioria entre os que ocupam as dez primeiras posições do ranking, destacou a instituição no material enviado à imprensa.

A principal conclusão do estudo é que a diferença na logística entre países com melhor sistema de transporte e aqueles com pior rede ainda é muito grande, apesar da ligeira melhora desde o início da pesquisa em 2007.

O Banco Mundial avalia vários fatores para montar o ranking geral – qualidade da infraestrutura de transporte, de serviços e a eficiência do processo de liberação nas alfândegas, rastreamento de cargas, cumprimento dos prazos das entregas e facilidade de encontrar fretes com preços competitivos. A instituição ouviu cerca de mil profissionais de logística pelo mundo. Com base nas entrevistas e na metodologia, o Banco Mundial desenvolveu o Índice de Desempenho Logístico (LPI, na sigla em inglês), que é usado para organizar o ranking.

 

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