Aécio Neves – Entrevista Coletiva

Brasília

Em primeiro lugar, em nome do PSDB, e ao lado do líder do PSDB, senador Cássio Cunha Lima, nossa primeira palavra é de cumprimento aos brasileiros. O que assistimos acontecer no Brasil a partir da notícia da indicação do ex-presidente Lula para a Casa Civil e da divulgação das razões objetivas que levaram a esta nomeação, o que assistimos é algo que não tem paralelo na história democrática do Brasil. As pessoas foram espontaneamente, em paz, para as ruas do Brasil inteiro demonstrar a indignação. E contra este sentimento legítimo, real dos brasileiros, não há como enfrentá-lo. Então, acho que há um Brasil diferente hoje. Um Brasil que despertou. Um Brasil que assumiu um papel através dos brasileiros de protagonismo na construção do seu destino. E estas mobilizações deverão permanecer. De manhã, reunimos com os nossos representantes na comissão do impeachment na Câmara dos Deputados. Nosso sentimento é de que esse rito também será rápido. Acreditamos que em torno de no máximo quarenta dias já possamos estar já pensando no Senado se manifestando em relação ao afastamento da presidente da República.

Quero por outro lado aqui fazer um alerta aos brasileiros e brasileiras de todas as partes do país: parece que o know-how que o PT adquiriu durante a campanha eleitoral vem sendo utilizado agora mais uma vez. Panfletos apócrifos como este estão sendo distribuídos em todo o Brasil para justificar convocações, manifestações ou mobilizações que os apoiadores do governo já não têm mais condições de fazer com argumentos legítimos, lícitos, de apoio a aquilo em que eles acreditam. Então, é mais uma vez a fraude, o engodo que permeou toda a campanha eleitoral conduzindo essas manifestações. Estão sendo distribuídos em todo o Brasil, no Nordeste, em especial, com carros de som, como aconteceu durante a campanha eleitoral e nós denunciamos isso inclusive ao TSE.

Em Minas Gerais, no meu estado, documentos como este: “Urgente, vão acabar com Minha Casa, Minha Vida. Querem destruir o Lula e a Dilma para que todos os subsídios sejam pagos com juros e as prestações vão aumentar. Vão expulsar seus filhos da escola. Querem acabar com o Bolsa Família e deixar todos sem este benefício.” Na verdade, além da fraude, algo jamais visto na história do Brasil que se inicia na campanha eleitoral e permanece hoje, quero afirmar que quem está tirando dos brasileiros os recursos do Bolsa Família é este governo que não reajusta desde às vésperas da eleição.

De lá para cá, tivemos uma inflação acumulada em torno de 15%. Quem está inviabilizando o Minha Casa, Minha Vida, as obras do PAC, é este governo que quebrou o Brasil. Quem está levando o desemprego e o desespero a milhões de lares brasileiros é este governo pela sua incompetência e pela sua irresponsabilidade. Quem levou mais de 60 milhões de brasileiros ao endividamento e hoje sem condições de saldar suas dívidas, pendurados alguns no cartão de crédito e outros em outros tipos de dívida, quem levou a isso foi este governo, perdulário. Que gastou o que não podia para vencer as eleições e, hoje, transfere à sociedade brasileira a conta que deveria ser paga por esse governo. Temos, e a questão final que eu faço nessa introdução, na verdade, um Brasil a ser reconstruído.

Por mais duro que seja o embate político, por mais empenhando que estejamos e estamos no afastamento da presidente da República pela via Constitucional do impeachment, porque ela não tem mais as condições de nos levar, são e salvos, ao outro lado do rio, é preciso que nós pensemos no dia seguinte. Portanto, é fundamental anteciparmos e intensificarmos as conversas com outras forças políticas no Congresso Nacional, como temos feito no conjunto das oposições, e em especial agora com o PMDB, é vital que essas conversas avancem.

Vamos iniciar a semana retomando esses contatos, porque na avaliação do PSDB o fundamental é que na sucessão da presidente Dilma haja a convergência em torno de uma agenda emergencial para o Brasil. O PSDB, que sempre acreditou no caminho de novas eleições como aquele que legitimaria de forma definitiva o novo governo, compreende que qualquer saída é melhor do que a permanência da presidente Dilma. Portanto o esforço do PSDB hoje está centrado na questão do impeachment e na construção com outros aliados, em especial, o PMDB, de uma agenda a posteriori, de uma agenda que possa nos próximos dois anos permitir ao Brasil recuperar minimamente as condições de voltar a crescer, gerar empregos e voltar a trazer esperança para aos brasileiros

E as declarações da presidente Dilma de que vai perseguir quem fez os grampos, que vai demitir, que isso é inadmissível…

Olha, é muito triste quando um grupo político e lideranças políticas passam a ter como adversários não os seus oponentes no campo político, mas a Justiça. É o que vem acontecendo hoje com o PT. O PT hoje trava um embate não aqui no campo das ideias, não no Congresso nacional para defender o seu governo e suas realizações, o PT hoje trava um embate não aqui no campo das ideias, não no Congresso Nacional para defender o seu governo, as suas realizações. O PT hoje trava um embate com a Justiça, e a história universal, não apenas brasileira, mostra que o desfecho para esses momentos de tensão e de radicalização é sempre em favor dos poderes constituídos, das nossas instituições, e o papel das oposições nesse instante é defendê-las, blindá-las de qualquer tipo de assédio. Se um equívoco ocorreu aqui ou acolá, que seja apontado, mas isso não pode, nem de longe, levar ao ataque sistemático às nossas instituições, aos nossos poderes constituídos, à Justiça, ao Ministério Público e à imprensa, que é o sustentáculo maior de qualquer regime democrático. Nós estaremos aqui vigilantes, finais de semana, diuturnamente, para defender o Brasil desses ataques finais, que na verdade demonstram apenas que esse governo vive os seus estertores.

O governo deu um tiro no pé ao nomear o ministro Mauro Lopes para a Aviação Civil, afastando ainda mais o PMDB do Planalto? Porque o vice ficou bem irritado. Só para complementar, o sr. fala em aliado, o PMDB, mas o senador Renan é o mais cauteloso e é o Senado que vai votar o impeachment no final das contas.

É verdade. Eu sou de uma escola política mineira, e aprendi muito cedo com um dos grandes homens públicos da história do Brasil, que era o meu avô Tancredo, que esse Congresso é capaz de muitas coisas, menos de virar as costas para o que o povo diz. E o povo está dizendo algo de forma eloquente. Acho muito bom que chegue o final de semana, que algum desses parlamentares possam voltar às suas bases, porque voltarão impregnados do sentimento de mudança, do ‘já deu’. A questão é essa, traduzindo de uma forma mais direta o que os brasileiros sentem, é ‘já deu!’. Já deu desse governo. Eles não têm mais condições morais e políticas de continuar governando o Brasil, e é isso que vai contaminar o Congresso. O PMDB, por isso, é um ator vital, porque é hoje o partido de maior sustentação, fora o partido da presidente da República, a esse governo.

Mas o que estamos vendo na Câmara é que a Câmara não é uma Câmara hermética, fechada. Certamente repercutirá, como já vem repercutindo aqui no Congresso. Tenho uma sensação, com alguma experiência de congressista nos últimos 30 anos, de que no momento em que essa decisão chegar ao Senado Federal, a aprovação da abertura do processo de impeachment e o afastamento da presidente da República será amplamente majoritário, não apenas no PMDB, mas no conjunto das forças do Senado Federal. Estamos vivendo um processo agora, como diz mais uma vez na minha terra, é água de morro abaixo e fogo de morro acima. Ninguém mais segura o sentimento avassalador da sociedade brasileira, que não é a favor desse ou daquele partido, dessa ou daquela figura, é a favor do Brasil, e o Brasil precisa voltar a crescer, voltar a gerar renda, empregos, e isso não acontecerá com a presidente Dilma no poder.

Bater de frente com o PMDB é um erro, senador?

Foi uma decisão um pouco desesperada, mas eu tenho muito cuidado também em fazer análises internas de outros partidos, até pela minha condição institucional de presidente do PSDB. Faço apenas uma análise à distância do meu estranhamento, de no momento de grave crise como essa, o principal partido de apoio ao governo não se fez presente nesse ato. Nada aqui de pessoal em relação ao ministro, que é inclusive meu conterrâneo, mas foi muito simbólico a ausência das principais lideranças do PMDB. A política é feita muito mais, em determinados momentos, de gestos do que de palavras. O gesto do PMDB não se fazer presente é um gesto que recomendaria preocupações muito, mas muito grandes mesmo, no governo e naqueles que o sustentam.

O fato de o presidente do Senado ter exonerado hoje o chefe de gabinete do senador Delcídio e o assessor de imprensa dele não mostra que talvez ele não tenha tanto a disposição? Aquele assessor que gravou o Mercadante. Ele foi exonerado hoje pelo presidente do Senado. Está dizendo que foi perseguição política, que o presidente Renan atendeu ao Planalto.

Não tenho informações sobre isso. O presidente Renan é sim – e isso é notório, é claro – aquele que ainda acredita em uma possibilidade de sucessão dessa crise ou de superação dessa crise com a presidente Dilma no cargo. Nos reunimos recentemente – o senador Cássio estava lá, outros líderes do PSDB e do próprio PMDB – e dissemos que não é por questão de vontade pessoal. Existe um calendário constitucional que prevê eleições em 2018. O PSDB está preparado para esse calendário. A questão que se impõe hoje não é isso, é terá a presidente da República condições de continuar por esses dois anos e oito meses conduzindo o Brasil, com essa sucessão de crises, com essa absoluta ausência de iniciativas congressuais? O Brasil aguenta? Haverá um empresário que vai colocar um real na sua empresa e garantir um emprego com esse quadro de instabilidade?

A política se movimenta a partir da realidade, daquilo que estamos vivendo hoje. Então, tenho certeza que o presidente Renan, não obstante à sua solidariedade pessoal que tem demonstrado à presidente, se curvará à realidade dos fatos. O que dissemos a ele, de forma uníssona e absolutamente convergente, no nosso último encontro, que estamos prontos, com a responsabilidade política que o PSDB sempre teve em discutir o day after, o pós-solução desse impasse com a saída da presidente da República sem que isso não atenda, do ponto de vista do seu projeto de país, ao PSDB. Porque uma solução pelo impeachment não atende ao PSDB. Mas, se ela atende ao Brasil, o PSDB tem que se colocar ao lado dela e estar disposto a construir uma agenda para o Brasil.

Apresentamos durante a campanha eleitoral uma agenda construída pelas mais qualificadas figuras da vida nacional, da economia, da educação, da área social, da saúde. Temos uma contribuição pronta a dar ao Brasil e estamos dispostos, se aquele que vier sucedê-la, independentemente do partido, tiver a disposição de enfrentar essa agenda. O PSDB não fugirá à sua responsabilidade. Vamos ajudar o Brasil nessa transição para que possamos chegar em 2018 e, aí sim, o PSDB em condições de apresentar diretamente à população brasileira o seu projeto de país, que quase foi vencedor nas últimas eleições, mas que, infelizmente, não chegou lá para a tristeza de todos os brasileiros.

Senado tem o dever de dar uma satisfação para o sentimento das ruas, afirma Aécio Neves

“As ruas do País inteiro, de forma espontânea, vêm se manifestando. Esta Casa tem o dever de ser a ressonância dos sentimentos múltiplos, vários, estratificados por todas as regiões do País, que nós temos colhido durante esses dias”, afirmou o senador Aécio Neves em pronunciamento no Senado nesta quinta-feira (17/03) ao ocupar a tribuna com outros líderes da oposição para avaliar os desdobramentos da posse do ex-presidente Lula como ministro da Casa-Civil, ocorrida esta manhã no Palácio do Planalto.

O senador também comentou a gravidade do conteúdo das gravações, feitas com autorização da Justiça, de ligações telefônicas mantidas entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff.

Leia, a seguir, trechos do pronunciamento do senador Aécio Neves:

“Hoje não é um dia comum, e não podemos perder a percepção disso. As ruas do País inteiro, de forma espontânea, vêm se manifestando. Esta Casa tem o dever de ser a ressonância dos sentimentos múltiplos, vários, estratificados por todas as regiões do País, que nós temos colhido durante esses dias. Portanto, eu quero sugerir que hoje seria o dia para o Senado Federal, durante todas as horas que se sucederão, e se for o caso, durante o dia de amanhã, debatermos em profundidade, mas com responsabilidade, a gravidade desta crise e os caminhos que esta Casa tem a sugerir, as contribuições que os senadores, experientes que são, muitos governadores de Estado, outros tantos com larga experiência nas mais variadas atividades, não apenas na política. Mas quem sabe, em alto nível, como convém aos belos momentos desta Casa, que tem como patrono Rui Barbosa, quem sabe nós possamos transformar o dia de hoje num dia de um grande debate, duro, como é natural em tempos duros como os que estamos vivendo, mas respeitoso, como é dever desta Casa.

A questão central hoje, e que colho como presidente do PSDB, é que os brasileiros se sentem ultrajados com uma decisão tomada com um sentido que não seria o mais nobre deles, com um sentido explicitado pelas últimas gravações tornadas públicas, que significava a possibilidade de impedir que o ex-Presidente da República – e nada de pessoal contra o ex-Presidente da República – pudesse ter a sua prerrogativa (Fora do microfone.) de foro alterada. Eu não vou adentrar ainda esse tema. Vamos estar aqui, nós da oposição, durante todo o dia. Acho que é importante que a base também esteja – nos reunimos até agora há pouco – para demonstrar ao País a necessidade de, por meio da política, da boa política, das boas formulações da política, apresentarmos para o País um desfecho para esta Crise, que não pode ainda continuar a ser alimentada.

O Brasil merece o início de um novo tempo, de uma nova quadra, para que nós possamos, oposicionistas, governistas, não importa, mas cidadãos brasileiros como um todo, iniciar uma nova história no Brasil, com respeito às instituições, com respeito à Lei e à Constituição, da qual somos todos escravos, mas com a coragem necessária para rompermos com o que está aí e, dentro daquilo que prevê a Constituição, iniciarmos uma nova página, como disse, na história do País. Fica, portanto, esse convite, e nós da oposição estaremos aqui prontos para um debate contundente, mas obviamente no nível que os membros do Senado Federal certamente saberão manter.

Não vou tomar muito tempo deste plenário, neste instante, pretendo voltar ainda à tribuna, e talvez com o senador Paulo Rocha um pouco mais sereno, um pouco mais tranquilo, mas para dizer algo aqui que me parece muito distante das preocupações do senador. Ele nos acusa de ter acirrado os ânimos do país. Teremos nós esta força? Nós da oposição acirramos os ânimos do país? Ou são essas denúncias sucessivas que não cessão, ou são as medidas absolutamente equivocadas, irresponsáveis e atrapalhadas na economia que nos levam a pior recessão da nossa história, um desemprego sem precedentes no Brasil que estão levando as pessoas às ruas. Me acusa o senador Paulo Rocha de, como presidente do PSDB, ter impetrado uma ação na Justiça Eleitoral a partir de inúmeras denúncias que nos chegavam.

O PT fez isso corriqueiramente em inúmeros estados. Se não tivesse cumprido a minha obrigação, e não é o PSDB que produz essas provas, de solicitar ao Tribunal Eleitoral de investigar as denúncias que nos chegavam, eu certamente estaria prevaricando. Mais, se não entro eu com esta ação como presidente do PSDB o Brasil não estaria tendo conhecimento das gravíssimas denúncias que vinculam sim recursos da Petrobras ou do propinoduto ao financiamento da campanha eleitoral. É essencial que o direito à livre e ampla defesa seja garantido. A presidente terá lá todas as condições de demonstrar que essas acusações ou que essas delações são falsas.

Agora o que eu percebo de forma muito clara e essas gravações de ontem trazem tudo isso à luz. Há sim uma tentativa de nivelar aquilo que não é nivelável. Percebi claramente em algumas dessas gravações que vale a pena sim, vamos citar uma, duas, dez, quinze vezes alguma figura independentemente do que isso represente para que quem sabe com isso haja uma pressão explícita como uma dessas gravações coloca em torno do procurador geral da República ou do Supremo Tribunal Federal. Não, temos instituições que funcionam. Que funcionam com independência, que funcionam com altivez. Se eventuais excessos forem cometidos por alguma delas caberá à sociedade reagir a esses excessos. Mas em relação a aquilo que é dito sobre o PSDB, a nossa postura é muito diferente da postura do PT. Não atacamos as nossas instituições, não demonizamos a imprensa. Ao contrário, não consideramos como considera o PT um ataque à democracia.

Queremos que tudo seja investigado em profundidade, não há, para os homens de bem, nada, absolutamente nada mais relevante do que a verdade e é isso que estamos buscando. Não acredito que serão apenas essas as citações a nomes da oposição e ao meu próprio, muitas outras virão e todas serão respondidas de forma cabal, clara, com serenidade, mas com absoluta firmeza. Mas é preciso, que coloquemos nossos olhos no futuro, vamos olhar o que está acontecendo com o Brasil, vamos encontrar caminhos para que o Brasil rompa definitivamente com o que está aí ancorado na Constituição, para construirmos um tempo novo, de convergência e não de divisões.

Quisera ter o poder de mobilizar as massas que ocuparam ontem e no último domingo as ruas do Brasil inteiro. Não tenho! E, se V. Exªs não compreenderam de forma clara o que está acontecendo no sentimento e na alma dos brasileiros, certamente não estarão em condições de contribuir para uma saída que seja de interesse dos brasileiros e dos trabalhadores. Por último, jamais senador Paulo Rocha, quando V. Exª teve seu nome citado no mensalão e depois absolvido, V. Exª jamais teve, desse parlamentar, uma citação que não fosse digna e de respeito. É isso que o PSDB e os tucanos esperam também de V. Exª.”

Aécio Neves protesta contra a destruição de gravações do Conselho da Petrobras

O senador Aécio Neves protestou, hoje (05/05), em pronunciamento no Senado, contra a destruição de gravações que documentavam as reuniões do Conselho de Administração da Petrobras, presididas por Dilma Rousseff. A destruição de materiais compromete muito a investigação sobre as irregularidades cometidas pela companhia.

 

Ouça o pronunciamento do senador: