“A ponta do iceberg”, diz Aécio Neves sobre condenações de réus da Lava-Jato

O senador Aécio Neves afirmou, nesta quarta-feira (22/04), que as condenações de oito réus investigados pela Justiça Federal por desvios na Petrobras são apenas a ponta do iceberg de um esquema de corrupção que a cada dia surpreende a sociedade brasileira pelo volume assombroso de dinheiro público desviado.

“O que assistimos hoje, quase que incrédulos, é que, infelizmente, institucionalizou a corrupção no governo do PT. E não se atém apenas à questão da Petrobras. O volume de recursos e os números são tão assombrosos que é difícil em qualquer parte do mundo crer que isso possa ter acontecido sem o conhecimento das mais altas autoridades. Na verdade, institucionalizou-se a corrupção e aqueles responsáveis por ela estão sendo punidos. Mas eu acho que estamos ainda apenas assistindo a ponta do iceberg”, disse Aécio Neves em entrevista à imprensa no Senado.

Nesta quarta-feira (22), a Justiça Federal condenou o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef e outros seis réus. As condenações dizem respeito a crimes cometidos em obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O valor do projeto, orçado inicialmente em R$ 2,5 bilhões, já supera os R$ 20 bilhões.

Para Aécio Neves, a condenação do ex-diretor Paulo Roberto Costa traz à tona a necessidade de se investigar quem comandou o esquema de corrupção na Petrobras.

“Não sou juiz para avaliar a extensão da pena, mas é uma pena expressiva para alguém que, assumidamente e confessadamente, cometeu um crime continuado. Mas será que é ele apenas que cometeu? Ele seria o último beneficiário daquilo que aconteceu na Petrobras? Acho que outros desdobramentos ainda virão, e os brasileiros de público devem apoiar, e apoiar o trabalho que o juiz Sérgio Moro vem conduzindo, que o Ministério Público vem conduzindo. Esperamos que no Supremo isso aconteça da mesma forma”, afirmou Aécio Neves.

Dilma, indevidamente

Artigo da jornalista Dora Kramer – Jornal O Estado de S. Paulo – 18/11/2014

 

Partindo do pressuposto de que não lhe falha a memória e de que o Brasil não sofre epidemia de amnésia, a presidente Dilma Rousseff incorre em ato de deliberada apropriação indébita ao atribuir ao seu governo o marco histórico no combate à corrupção, devido ao desmonte do esquema de ilícitos em funcionamento na Petrobrás entre 2003 e 2012.

Da Austrália, a presidente se pronunciou dizendo que esse é um escândalo de características especiais. Segundo ela, “o primeiro a ser investigado”. E por isso mesmo, um divisor, “capaz de mudar para sempre as relações entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e as empresas privadas”, em relação à impunidade. Avocou para si o mérito, quando ele se deve a instituições que funcionaram com independência: Congresso, Polícia Federal, Ministério Público e Supremo Tribuna Federal.

Em matéria de amplitude há, de fato, ineditismo, como demonstraram as prisões dos executivos de empreiteiras na última sexta-feira e já indicam as notícias sobre a próxima fase da Operação Lava Jato sobre o envolvimento de algumas dezenas de políticos. Nem de longe, porém, é possível dizer que esse seja o primeiro escândalo a ser investigado e muito menos que seja a causa de mudança de procedimentos.

Na realidade, é consequência de um escândalo produzido pelo PT, o mensalão: desde a denúncia de Roberto Jefferson, passando pela bem sucedida CPI dos Correios, o trabalho do Ministério Público, a denúncia do procurador-geral Antonio Fernando de Souza, o julgamento e as condenações no Supremo Tribunal Federal, até as prisões dos réus.

Enquanto os políticos estão quase todos cumprindo suas penas em prisão domiciliar, os operadores do esquema nos bancos e agências de publicidade continuam na cadeia. O principal deles, Marcos Valério ainda ficará por muito tempo em regime fechado. Confiou na influência dos donos do poder e calou-se na CPI e na Justiça. Quando quis fazer delação premiada era tarde.

Deu-se ali a mudança de paradigma que serviu de exemplo e, depois de alguma resistência, incentivou Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef a optarem pelos acordos de delação premiada. A eles recentemente juntaram-se outros, no que em breve talvez seja uma fila.

Com base nas informações prestadas em exaustivos depoimentos é que a polícia está conseguindo desmontar o que a PF já havia chamado de “organização criminosa” montada dentro da Petrobrás. Isso ao tempo em que o governo tratava o assunto em estado de total negação de que houvesse qualquer tipo de irregularidade na estatal – no máximo se admitia erros administrativos, nunca decorrentes de “má-fé”, muito menos de intenções delituosas.

De onde não se pode aceitar como verossímil a versão de que foi a presidente quem “mandou” investigar. Inclusive porque o trabalho foi feito em conjunto pela Polícia Federal, Ministério Público e Justiça do Paraná, instâncias cuja autonomia é assegurada pela Constituição.

Até meados do ano, antes de aparecerem evidências mais consistentes, o governo só fez trabalhar intensamente para inviabilizar as comissões de inquérito no Congresso que pretendiam investigar os negócios na Petrobrás, tentar adiar decisões do Tribunal de Contas da União sobre a refinaria de Pasadena e por várias vezes ministros, políticos governistas e a própria presidente insistiam na versão de que quem lança suspeições sobre a empresa tinha como objetivo enfraquecer um patrimônio nacional e impor prejuízos políticos à candidatura da presidente.

Houve mesmo um momento em que Dilma pôs em dúvida a veracidade do conteúdo das delações premiadas e acusou a oposição de usar as “supostas denúncias” para dar “um golpe” no País.

Diante de tanta contradição e ambiguidade, é de puro exercício de ficção transformar o governo de agente a combatente da corrupção na Petrobrás.

 

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Aécio Neves – Entrevista sobre denúncias da Petrobras

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, concedeu entrevista coletiva, nesta sexta-feira (25/04), em São Paulo (SP), sobre denúncias relacionadas à Petrobras. Aécio Neves declarou que todas as denúncias devem ser esclarecidas, como a possível ligação do ex-ministro Alexandre Padilha com o doleiro Alberto Youssef.

 

Leia a transcrição da entrevista do senador Aécio Neves:

Sobre notícias de ligação do ex-ministro Alexandre Padilha com doleiro.

Tenho sempre muita cautela em relação a essas denúncias para não fazer qualquer pré-julgamento. Mas todas as denúncias têm que ser esclarecidas. Acho que interessa principalmente ao ex-ministro prestar esclarecimentos. Não antecipo qualquer julgamento, vi pelos jornais as notícias, acho que ele deve ser o primeiro a estar interessado em esclarecer qual o envolvimento dele nessa questão. O que estamos percebendo é que é um emaranhado de situações que, de alguma forma, compromete o governo como um todo. Esse assunto Petrobras, que é um assunto extremamente presente hoje não apenas na articulação da oposição, mas presente no cidadão, na indignação das pessoas, é algo que precisa ser esclarecido. O que mais me surpreende é o governo não optar por discutir as questões dentro da CPI. Hoje, vejo que existem ainda posições contraditórias, uns querem, aceitam a criação da CPI, a indicação dos nomes, outros acham que devem recorrer, como é o caso do Renan, ainda, ao Supremo Tribunal Federal. Isso mostra uma enorme desarticulação, que passa uma sensação muito ruim para a sociedade, de que se usa qualquer artifício para impedir investigações. Um governo que não deve é um governo que não teme. E não é essa a atitude que estamos vendo do governo federal nessa e em várias outras denúncias. Vamos aguardar que, no caso do ex-ministro, ele preste os esclarecimentos que permitam que as suspeições em relação à sua conduta possam ser dissipadas.

 

Sobre a possibilidade de a proximidade com a Copa do Mundo e eleições atrapalharem o calendário da CPI da Petrobras.

Isso não pode ser um argumento aceitável, senão estaríamos criando quase, no ano eleitoral, uma situação de que se pode tudo. Ao contrário, acho que, se for necessário, vamos atravessar o período eleitoral debatendo estas questões. A sociedade quer saber. Não é a oposição que quer saber. A sociedade quer saber qual o modus operandi e de que forma a maior empresa brasileira vinha sendo administrada ao longo de todos esses anos. Qual o nível de autonomia os diretores tinham, a que interesses eles serviam. Agora surgiram essas denúncias de que saques foram feitos sem autorização formal ou por escrito. É um conjunto de ações que vão se sucedendo e nos surpreendem. Acho que a questão temporal, a questão de estarmos próximos ao período eleitoral, não pode servir de argumento para que as investigações deixem de ocorrer. Ao contrário, posso garantir que a oposição estará presente, seja na CPMI, seja na CPI no Senado, até o dia da eleição, se for necessário, e após a eleição, para dar continuidade às investigações.

 

Sobre a possibilidade de postergação para a instalação da CPI da Petrobras.

O presidente do Senado não tem outra alternativa a não ser cumprir a determinação do Supremo Tribunal Federal. Aliás, poderia ter nos poupado deste constrangimento se tivesse cumprido o regimento e a Constituição. Porque não cabe ao presidente de uma das Casas, fazer juízo de valor em relação a conteúdo da CPI, se um é mais ou menos abrangente. Cabe a ele simplesmente conferir se já um fato determinado e um número de assinaturas mínimo exigido e instalar a CPI. Acho que esta ação e a tentativa de postergação permanente desgastam o Parlamento. Não faz bem ao próprio presidente Renan. Estaremos, na terça-feira, cobrando que ele oficie aos líderes dos partidos para que indiquem os seus membros. E, se houver um adiamento por parte dos líderes, cobraremos que ele faça, ele próprio, a indicação. Porque é isso que o regimento determina.

 

Sobre o prazo para as indicações.

Não tinha um prazo fixo. No passado, lembro que na CPI dos Bingos, tivemos de ir ao Supremo. O Supremo determinou que o presidente fizesse a indicação. Me lembro, quando era presidente da Câmara, em vários casos, quando se retardava determinada instalação, não só de CPI, mas de qualquer comissão, eu indicava. Fazia até por ordem alfabética. Agora se faz a partir do líder e depois e depois vice-líder. Acho que não há como fugir dessa investigação. A sociedade quer esta investigação. O Brasil aguarda essas investigações. Quanto mais demora, maior o desgaste do governo.

 

Sobre encontro com deputados do PSD no Rio de Janeiro.

Agora está chegando o momento final das alianças. Até agora todo mundo, de alguma forma, conversava, mas ninguém fechava nada. As realidades locais têm vida própria. Elas não se submetem à decisão de uma liderança nacional, por mais legítima que seja essa liderança. Então, as construções locais estão, agora, se consolidando.  Não se surpreendam ao verem grande parte dos partidos da base governista, da base de apoio à presidente da República aliada à oposição em vários estados. E não é só PSD. Vai ter PMDB, vai ter PP, vai ter PR, em função da realidade local. Minas é um retrato disso.

Em Minas temos todos os partidos praticamente, com exceção do PMDB e do PCdoB, que estão na base do PT, estão na nossa aliança. No Paraná, para voltar ao PSD, o PSD está conosco. Acho que está em Goiás, está no Rio hoje, anunciando hoje. E por aí vai. Acho que pode ficar conosco em vários estados onde, sobretudo, temos governo.

Isso não é uma coisa só em razão do esvaziamento do governo, da fragilização do governo. É a realidade local. Porque grande parte desses partidos são adversários históricos do PT. Isso não mudou. Então a realidade, até a eleição, vários dos membros desses partidos defende uma aliança conosco. Agora, que há um sentimento crescente, de fragilização do governo. Isso existe. E pode impulsionar. Mas não é isso ainda. Acho que é porque estamos chegando no momento de fechar os acordos. Então nós vamos ter em muitos estados vários partidos. A presidente da República talvez leve o tempo de televisão de vários desses partidos, mas não levará mais a militância e o apoio das bases desses partidos.

 

Ouça a entrevista do senador: